Arquivo para agosto 2014

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Vamos que vamos sonhar não custa nada

 

Adão e Eva
José Régio

Olhámo-nos um dia,
E cada um de nós sonhou que achara
O par que a alma e a cara lhe pedia.

– E cada um de nós sonhou que o achara…

E entre nós dois
Se deu, depois, o caso da maçã e da serpente,
… Se deu, e se dará continuamente:

Na palma da tua mão,
Me ofertaste, e eu mordi, o fruto do pecado.

– Meu nome é Adão…

E em que furor sagrado
Os nossos corpos nus e desejosos
Como serpentes brancas se enroscaram,
Tentando ser um só!

Ó beijos angustiados e raivosos
Que as nossas pobres bocas se atiraram
Sobre um leito de terra, cinza e pó!

Ó abraços que os braços apertaram,
Dedos que se misturaram!

Ó ânsia que sofreste, ó ânsia que sofri,
Sede que nada mata, ânsia sem fim!
– Tu de entrar em mim,
Eu de entrar em ti.

Assim toda te deste,
E assim todo me dei:

Sobre o teu longo corpo agonizante,
Meu inferno celeste,
Cem vezes morri, prostrado…
Cem vezes ressuscitei
Para uma dor mais vibrante
E um prazer mais torturado.

E enquanto as nossas bocas se esmagavam,
E as doces curvas do teu corpo se ajustavam
Às linhas fortes do meu,
Os nossos olhos muito perto, imensos,
No desespero desse abraço mudo,
Confessaram-se tudo!
… Enquanto nós pairávamos, suspensos
Entre a terra e o céu.

Assim as almas se entregaram,
Como os corpos se tinham entregado,
Assim duas metades se amoldaram
Ante as barbas, que tremeram,
Do velho Pai desprezado!

E assim Eva e Adão se conheceram:

Tu conheceste a força dos meus pulsos,
A miséria do meu ser,
Os recantos da minha humanidade,
A grandeza do meu amor cruel,
Os veios de oiro que o meu barro trouxe…
Sonhar não custa nada

 
Eu, os teus nervos convulsos,
O teu poder,
A tua fragilidade
Os sinais da tua pele,
O gosto do teu sangue doce…

Depois…

Depois o quê, amor? Depois, mais nada,
– Que Jeová não sabe perdoar!

O Arcanjo entre nós dois abrira a longa espada…

Continuamos a ser dois,
E nunca nos pudemos penetrar!

 

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Publicado agosto 29, 2014 por heitordacosta em Cultura

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Cabeças Pensantes atentem e vigiem

 

 

Publicado agosto 19, 2014 por heitordacosta em FRATERNIDADE

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Cabeças Pensantes atentem e vigiem

“Abre a mente ao que te revelo e retém bem o que te digo, pois não é ciência ouvir sem reter o que se escuta” – Dante Alighieri – Paraíso

Publicado agosto 19, 2014 por heitordacosta em Reflexão

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A Ordem das Cabeças Pensantes.

Publicado agosto 15, 2014 por heitordacosta em Uncategorized

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Cabeças Pensantes atentem e vigiem

A Decadência da Mentira

Nesses últimos dias vivemos um período de felicidade “ilusória” manifestada pelo imaginário coletivo de sociedades em quase todo o planeta. Induzidas por parte da mídia em fração de segundo o mundo torna-se humano, fraternal. O amor aflora em todos os seres. Todos se amam entre si e, desejam-se.

Porém, passado essa histeria coletiva, voltamos à realidade onde os fatos reais ou não, continuam ditar normas, regras, costumes, ora alicerçados na verdade verdadeira ora, na mentira repetida.

O Papa Bento XVI em um momento disse que a questão da homossexualidade é tão grave quanto o aquecimento global.

Em outro episodio, ao discursar na “inauguração” da Cidade da Música, o Sr Cesar Maia –prefeito da Cidade do Rio de janeiro na época- citou, talvez numa ilação ao acontecimento, “A Decadência das mentiras” de Oscar Wilde.

Atualmente uma Emissora de Televisão tem explorado o assunto em suas novelas com certa insistência.

Vou pedir licença para apresentar um trabalho que eu acho pertinente para ocasião.

Richard Miskolci

“Art is a symbol, because man is a symbol.”De Profundis Publicado originalmente na revista Temas- UNESP/Araraquara, Pós-Graduação em Sociologia, 1995. Ano II N.3 p.33-46Resumo:

O texto aborda a inserção social de um artista, eminentemente um esteta, na sociedade vitoriana. Os ensaios teóricos de Wilde aproximam-no das idéias de Nietzsche, sem que ele as tenha conhecido. Um panorama de sua obra é esboçado dentro desta perspectiva e a interpretação de seu amoralismo como forma superior e mais sofisticada de moral perpassa a análise. Wilde era um irlandês na sociedade britânica, devasso descuidado no reino da hipocrisia. Coerente com sua persona de poeta maldito escolheu o caminho mais trágico para encerrar sua carreira, escolha que o levou ao cárcere e à abjeção nacional.

Oscar Wilde – Um Esteta na Pátria do Utilitarismo

O termo esteta tem uma conotação pejorativa em nossos dias, a compreensão das razões dessa atitude é reveladora. Ao esteta atribui-se uma excessiva valorização da arte, falta de conexão com os problemas reais da existência humana e características ainda menos lisonjeiras. Kierkegaard via o homo aestheticus como o oposto do homem ético e durante todo o século XIX o esteticismo e o antiesteticismo congregaram forças. O estilo caracteristicamente idealista do pensamento alemão foi mais hospitaleiro à investigação estética do que o racionalismo francês ou o empirismo inglês. A estética surge como categoria teórica quando a produção cultural ganha autonomia em relação às várias funções sociais a que servia tradicionalmente. Devemos iniciar caracterizando a estética como uma ciência autônoma da sensibilidade, mais precisamente, um discurso sobre o belo que desafia a lógica. O Aesthetica (1750) de Alexander Gottlieb Baumgarten representou uma inarticulada rebelião do corpo contra a tirania do teórico. Essa virada criativa em direção ao corpo sensual relaciona-se a uma preocupação libertadora com o particular e uma forma astuciosa de universalismo. Assim, é possível compreender a estética como reação à crescente racionalização que ocorre junto com a ascensão da burguesia e do sistema econômico capitalista. O belo, na tradição platônica, era visto como “apresentação sensível”, como ilustração do verdadeiro, como uma transposição materializada de uma verdade moral ou intelectual. No platonismo, na teologia cristã ou no cartesianismo, o mundo inteligível é sempre superior ao sensível. Deus, por ser inteiramente inteligível, não é afetado pela marca da imperfeição e finitude humana que é a sensibilidade. A estética é uma ruptura com a teologia e a filosofia de inspiração platônica. O objeto da estética é o próprio homem. A autonomia do “sensível” (mundo onde o divino se retira para dar lugar ao humano) se realizou em três etapas. A primeira se deu com a publicação do Aesthetica de Baumgarten e a Fenomenologia de Johann Heinrich Lambert (1766, a primeira de uma longa linhagem), com estas obras toma forma o projeto de se isolar uma lógica própria dos “fenômenos” sensíveis. Depois, a Crítica da Razão Pura de Kant declarou a autonomia radical do sensível com relação ao inteligível abrindo espaço para a Crítica da Faculdade de Julgar. Por fim, Nietzsche suprime pura e simplesmente o mundo inteligível eliminando toda a referência a Deus, mesmo como idéia. O mundo sensível, o propriamente humano, é alçado à categoria de único mundo. A estética desafia a lógica ao declarar o objeto belo radicalmente não-inteligível (irracional). A filosofia racionalista não tem como desviar os olhos do que está fora da razão. De Leibniz a Freud isso será o problema central do pensamento germânico. Na Inglaterra, pátria do utilitarismo, encontraremos uns poucos que ousaram adentrar nessa esfera de reflexão idealista. Walter Pater foi um dos pioneiros, mas Oscar Wilde (1854-1900) tornar-se-ia o maior esteta inglês. Seria o defensor teórico da estética como apologia radical das potencialidades humanas como fins em si mesmas na pátria do utilitarismo burguês, o responsável pela estreiteza espiritual da era moderna. A estética, como herança da nobreza, é a exaltação da “riqueza do ser”, inimiga do egoísmo burguês. Ressalta uma visão de sociedade como comunidade de sensibilidade com seus iguais. Julgar esteticamente eqüivale a livrar-se de preconceitos em nome de uma humanidade comum e universal:“O desgosto que sentimos frente à tirania e à injustiça é anterior ao cálculo racional, como o nojo que sentimos diante de um alimento estragado. O corpo é anterior à racionalidade interesseira e forçará sua aprovação ou aversão instintiva às nossas práticas sociais.” (Eagleton: 1993, p.34) Na França e na Inglaterra, a estética materializou-se mais como movimento artístico do que como discurso teórico, o qual se manteve especialidade germânica. O esteticismo guarda similaridades com a estética, mas caracteriza-se pela aplicação de um de seus pressupostos: a obra artística é superior a qualquer discurso teórico racional sobre ela. Assim, se o esteticismo perde em clareza conceitual ganha por conceder à arte o poder questionador e, esperava-se transformador, que o discurso teórico revelava-se incapaz de concretizar. Na segunda metade do século XIX, decadentismo e esteticismo eram muito ligados e as críticas atribuídas a eles versavam sobre sua suposta morbidez e presunção, seus excessos técnicos e lingüísticos, sua preocupação exclusiva com a sensação, seu artificialismo e anormalidade. Essas críticas ignoravam o fato de que decadência pode significar aperfeiçoamento; não tem ligação necessária com morte e fim, mas antes pode ser um melhoramento da vida. Wilde dizia que os decadentes eram sinceros, honestos e austeros. A decadência de algo está sempre associada ao nascimento de outra e, no caso de Wilde, na tentativa de contribuir para a criação de um novo homem, o qual denominaremos de homo aestheticus. A figura do esteta foi acidamente utilizada em romances de escritores tementes à moral, o que ajudou a formar a imagem do esteta como homem preguiçoso, superficial e de sexualidade ambígua. Em Patience (1881) de Gilbert, o esteta Bunthorne aparece como um tipo efeminado e narcisista. Henry James, cujo primeiro romance é uma reação ao esteticismo de Pater, tem uma coleção de personagens estetas. Em The tragic muse (1889), Gabriel Nash, presume-se, é sua visão de Oscar Wilde. James ironiza sua atitude de cidadão do mundo fazendo com que o personagem apareça sempre indo para “algum outro lugar” e também sua ociosidade, mas permite que ele responda às críticas de farsante e de nunca ter dado provas de seu talento. Wilde diria um dia a André Gide que colocara todo seu gênio em sua vida e apenas seu talento em suas obras, um gracejo de quem deixaria uma genial e volumosa obra. A imagem não muito desfavorável do esteta no livro do circunspecto e anti-esteticista James é reveladora. Wilde não foi um mero seguidor da doutrina estética, mas talvez seu maior transformador. Wilde abraçou o esteticismo quando ainda estudava no Trinity College, em Dublin. Seu irmão Willie chegou a falar sobre “a moral esteticista e sua influência sobre nossa época” na sociedade filosófica do colégio. Em Oxford, com vinte e um anos, leu Studies in the history of the Renaissance de Walter Pater, o qual se tornou seu “livro de ouro” e teve influência ímpar em sua vida. Pater detinha-se, principalmente, em análises sobre Leonardo, Michelangelo e do iniciador da historiografia da arte, Winckelmann. Sem segurança quanto ao rumo de sua vida, Pater pareceu-lhe uma bússola. O capítulo final do livro de Pater, que originalmente correspondia às últimas páginas de um artigo sobre poesia estética publicado em 1868, oculta sob um disfarce de manual de instrução para críticos de estéticas uma introdução ao homoerotismo. Na segunda edição do livro o autor retirou o capítulo e só o reintroduziu na terceira, com ressalvas. Pater exaltava uma densidade de gosto e sabor, da arte e da vida. Insistia na fugacidade e na deriva de todas as coisas e neste fluxo só caberia recorrer às paixões, sensações, momentos. Seu sensualismo era um meio de exaltação do mundo sensível e libertação do homem para a fruição do mundo numa sociedade marcada por rígidas e restritivas normas de comportamento. Ainda assim, Wilde vacilava diante das repreensões morais que, ao mesmo tempo, recebia em conversas e conferências de John Ruskin. Wilde começou a ganhar fama mais por sua conversa espirituosa e acidamente crítica e seu modo exótico no vestir do que por seus poemas e resenhas. Conta-se que em 30 de abril de 1877, na inauguração da Grosvenor Gallery, compareceu com um casaco com a cor e o formato de um violoncelo. Afirmou ter sonhado com a roupa. Às vezes usava lenços de cores muito vivas e acessórios que chocavam a sofisticada (leia-se padronizada) sociedade londrina. Foi exótico no vestir na época em que isso representava uma espécie de rebeldia. Dizia que não nascera para regras, mas sim para exceções. O século XIX marca a consolidação da alienação dos indivíduos com relação à existência pública. Wilde foi uma figura pública numa sociedade viciada na vida privada. As pessoas temiam revelar suas intimidades pelas aparências. A indiferenciação das roupas era patente já na década de 1840 e revelava a aparência neutra como busca de proteção aos olhos da sociedade. A sofisticação, atributo cosmopolita, eqüivalia à capacidade de passar desapercebido pela multidão. Os dois fenômenos que os burgueses mais temiam revelar nas aparências eram a classe social e o sexo. Wilde recusou-se a cindir sua vida pessoal em duas como fizeram seus contemporâneos, afirmou a unidade de sua personalidade frente a uma sociedade baseada na vida dupla. Em 1883, surge o romance de Huysmans, À rebours (Às Avessas), que daria força programática ao decadentismo do outro lado do canal. O protagonista do romance, Des Esseintes, é um nobre decadente com gostos incomuns. De tanto buscar prazeres inauditos termina numa glamurosa neurastenia. Esta obra estabeleceu a figura do esteta como degustador, aquele que passa de um desejo exótico ao outro. O romance logo caiu na predileção de Wilde que adotou até mesmo o uso do cravo verde. De Esseintes afirma que se as flores artificiais são preferíveis às naturais, então as flores naturais que parecessem artificiais seriam mais belas ainda. Logo um florista da Burlington Arcade passaria a tingir todos os dias cravos brancos de verde. Essa tendência wildeana de romper a barreira entre a ficção, ou imaginação no caso do sonho sobre o traje em forma de violoncelo, e a realidade revela uma aptidão filosófica. Schopenhauer afirmou sem rodeios que o dom de considerar, em certas ocasiões, os homens e todas as coisas como imagens oníricas era tipicamente filosófico. Nietzsche ressalta em O Nascimento da Tragédia que nosso ser mais íntimo, o que é comum a todos nós, encontra na experiência onírica um prazer profundo e essencial. Wilde queria levar isso ao paroxismo. Sua opção pelo humor para manifestar as agudas críticas à sociedade vitoriana é coerente com sua percepção de que a distorcida moral burguesa que queria denunciar tinha na aparência de seriedade seu alicerce. Nos sérios e fleumáticos rostos dos burgueses descobriu uma máscara que queria retirar. Por detrás delas encontraria o culto ao sacrifício pessoal, o qual uma vez comparou como remanescente da automutilação dos selvagens e parte da adoração da dor. Wilde sabia que no culto ao sacrifício e à dor está inscrita a aceitação da realidade, a conformação, mas era um espírito irrequieto e rebelde por natureza. Afirmaria que não podíamos voltar ao santo, havia muito mais a ser aprendido com o pecador. O pecado é um elemento essencial da evolução humana, ele enfatiza a originalidade do indivíduo e nos salva da monotonia do tipo. Queria transformar o que não lhe agradava e exaltar o prazer como mais humano do que a dor. Até o início da década de 1890 oscilou entre duas versões do esteticismo: a derivada de Gautier e defendida por Whistler que exaltava a arte por seu elitismo e sua absoluta inutilidade, além de dissociá-la da vida e da natureza e a versão que sustentava a capacidade da arte refazer o mundo. A arte é realmente inútil aos olhos de uma sociedade pautada pela economia, mas nisso reside sua subversão. O inútil para o burguês não o é para o esteta. Em sua passagem pelos Estados Unidos em 1882, Wilde apresentou a doutrina estético-decadentista sob o título de “A Renascença Inglesa” e alcançou a mescla perfeita das versões do esteticismo negando seu elitismo. Em suas conferências ficou claro que abandonara a aprisionante teoria pateriana da apreciação do instante e dirigia-se a uma espécie de socialismo, através do qual poderia ensinar ética aos moralistas. Aproximava-se cada vez mais de uma concepção da estética como transformadora do homem moderno de seu decadente estado para um “homem maior”, como dizia Wallece Stevens. Wilde defendia um esteticismo repensado. A idéia de renascença apareceria de maneira mais clara em The soul of man under socialism (A Alma do Homem Sob o Socialismo) e designa uma era de surgimento de um novo helenismo onde a propriedade seria abolida. O casamento é apresentado como transposição da propriedade para a esfera das relações amorosas e, assim, também seria eliminado. A sociedade utópica possibilitaria a concretização do homo aestheticus, do livre e completo desenvolvimento das capacidades humanas. O esteta vê na arte a concretização do nobre espírito humano. As obras artísticas são modelos aos quais devem recorrer os homens espiritualmente vazios de nossa era. No final da década de 1880, Wilde deixou claro que não aceitava a arte pela arte. Essa máxima só tinha sentido ao se referir ao que sente o artista enquanto está compondo, mas nada tinha a ver com o motivo geral da arte. Em “The decay of lying” (“A Decadência da Mentira”) expõe sua teoria invertendo Aristóteles ao afirmar que a vida imita a arte. Esta afirmação paradoxal sintetiza sua visão do esteticismo como transformador da vida humana. Seu elogio à artificialidade é nada mais do que a exaltação da imaginação humana ante um mundo cada vez mais aprisionado à estéril e dolorosa realidade objetiva. Quando fala que o pôr-do-sol é uma invenção de pintor quer dizer que a criação artística é instigadora da percepção humana. A apologia da beleza em seus textos é também a do bom. Neste sentido devemos compreender frases como esta: “Olhar uma coisa e vê-la são atos muito diferentes. Não se vê uma coisa enquanto não se compreendeu sua beleza. Então, e só então nasce para a existência.” (Wilde: 1961 , p.1088) Em “The critic as artist” Wilde afirma sua visão da crítica como empregadora da “experiência concentrada da espécie” de maneira a opô-la às obras dos artistas tomados individualmente para evitar que caíssem no conformismo. A arte, para ele, é uma grande subversiva, mas sempre corre o risco de esquecer a subversão. O verdadeiro artista é crítico, destrói enquanto cria. O decadentismo seria, então, a exposição acelerada dos meios de transformação para que se alcançasse algo melhor no novo que se criava. Como ironiza Nietzsche em sua autobiografia espiritual Ecce Homo, se diziam que ele era um decadente então, também era o contrário. Sem ter lido Nietzsche, Wilde chegou a uma visão próxima da do filósofo alemão com relação a muitas coisas. Destacamos seu questionamento de todos os valores consagrados e a exaltação da vida como fenômeno estético. Não conhecia a elaborada teoria nietzscheana da genealogia da moral, segundo a qual o cristianismo derrubou as virtudes pagãs e instituiu uma moral de escravos; mas percebia que a moral devia ser reavaliada. Referia-se, às vezes, a uma “ética superior” que reveria todos os valores. A decadência estava em todas as virtudes que os vitorianos gostavam de exibir como prova de vigor. A hipocrisia vigorava disfarçada de seriedade e o artista deveria ousar desmascará-la. Wilde e Nietzsche, cada um a seu modo, estavam construindo um homem novo. A defesa que Wilde faz da arte como transformadora do real não está muito distante da estética como ciência desenvolvida pelo pensamento filosófico alemão. Não deixa de ser curioso o fato de, paralelamente e ao mesmo tempo, Nietzsche na Alemanha e Wilde na Inglaterra estarem avaliando as relações entre ética e estética. O questionamento da moral os aproxima, mas suas conclusões são distintas. Nietzsche parece professar um perspectivismo absoluto enquanto Wilde encontrou uma perspectiva moral não viciada pela sociedade burguesa. Sua descoberta foi mais intuitiva, mas nem por isso menos importante. Explicitaremos essa perspectiva ao analisar sua obra ficcional, ou seja, seus contos e seu único romance. Consideramos essencial compreender sua visão do artista na sociedade. Para Wilde, o artista é um transviado não apenas por escolha. A consciência de seu próprio desvio sexual o ajudou a perceber isso. No final do século XIX não se empregava ainda o termo “homossexual” e Wilde defendeu essa orientação sexual basicamente através do ataque às máximas morais simplistas dos puritanos em suas peças da década de 1890. Nunca defendeu abertamente a homossexualidade, exceto uma vez em seu julgamento. Negou-se a assumir o papel de vítima da sociedade de forma contundente porque se considerava um rebelde, não um mártir ou missionário. Em três obras entre 1889 e 1892 investiu contra a fatuidade heterossexual como insulto à presunção contente consigo mesma: The Portrait of Mr. W. H. que jogava com a idéia de que Shakespeare era homossexual e teria escrito os sonetos a seu querido sr. W. H.* , The Portrait of Dorian Gray e Salomé, peça redigida em francês. Em The Portrait of Dorian Gray revela sua compreensão da necessidade de união entre ética e estética. Numa resposta a uma crítica de seu romance como imoral destaca o fato de na verdade ele ser moralista. A moral do romance seria a de que todo excesso, como toda renúncia, atrai seu próprio castigo ( vide Wilde: 1961, p.1318). Dorian arruina homens e mulheres, portanto as duas formas de amor são apresentadas como corrompidas. Não há celebração da homossexualidade, mas sim sua exposição diante de uma sociedade que fingia que ele não existia. Foi um ato de coragem e para Wilde pessoalmente, com os acontecimentos que o envolveriam com Lord Alfred Douglas, uma temeridade. Wilde dizia que a base da ação é a falta de imaginação. A ação é o único recurso dos que são incapazes de sonhar. Essa crítica dirigia-se claramente ao homem moderno cuja vida baseia-se na atividade irrefletida, no hábito de cumprir tarefas. A estreiteza espiritual do homem de ação revela-se em sua aceitação da realidade objetiva. A irreflexão e a servidão voluntária derivadas da atividade são sinônimos. Em “A Decadência da Mentira” (1889) observa que o pensamento não era contagioso na Inglaterra e aqueles que eram incapazes de aprender dedicaram-se ao ensino. A educação em moldes utilitaristas estava tornando estúpidas as pessoas. Uma sociedade baseada na ação é, na verdade, fundada na ignorância. Wilde cultuava a figura do “lagarto preguiçoso”, aquele que só aparece depois das cinco da tarde. Na Inglaterra vitoriana viciada pela atividade econômica era necessário compreender o que ele definia como “a importância de não se fazer nada” (citado em Ellmann: 1991, p.14). Wilde propunha a transformação da sociedade pelo ócio e neste aparente pedantismo reside a condenação do homo oeconomicus que se estabelecera como padrão através do capitalismo. O homem de ação é, acima de tudo, o burguês. A Inglaterra é a pátria do sistema econômico capitalista, nela a burguesia ascendeu ao poder já no século XVII com a Revolução Gloriosa. A Revolução Industrial lançou as bases de toda a sociedade contemporânea, uma sociedade cuja principal característica é a atividade econômica. O materialismo que permeia a vida do homem moderno é a ilusão que sustém a sociedade pautada pelo sistema econômico-produtivo. Por isso, Wilde dizia que o homem de ação tem mais ilusões do que o sonhador. Denominamos de homo aestheticus o novo homem que surgiria a partir da decadência do homo oeconomicus. Em “The Critic as Artist”, Wilde afirma que o espírito crítico pode tornar possível a (re)descoberta da vida contemplativa, aquela que tem por objetivo não fazer mas ser, e não apenas ser, mas transformar-se. Sua defesa do ócio revela-se bem diferente da atitude da figura quiescente que se lhe atribui. O ócio, na verdade, proporciona o tempo necessário para qualquer atividade espiritual e que estava sendo tomado pela atividade oca e incessante do homo oeconomicus. O ser humano precisa resgatar sua dignidade perdida no sistema econômico que emperra a transformação e mascara um crescente vazio espiritual. A moral burguesa precisa ser revista pois coaduna e justifica este estado de coisas. O que é considerado vício pelo burguês merece ser reavaliado. Assim, em De Profundis, extensa carta escrita na prisão para Lord Douglas, Wilde afirma que o supremo vício é a estreiteza de espírito. O vazio espiritual burguês repousa em seu utilitarismo. A atividade incessante exaltada como moralmente virtuosa esconde a criação de servos de um sistema econômico que promete a satisfação de desejos humanos através de objetos. A apologia estética da arte ressalta o fato de que na imaterialidade reside o humano e apenas através dela podemos saciar nossas aspirações. A beleza desafia a materialidade de sua fonte objetal, inscreve-se na alma distanciando-se de qualquer lógica. A reformulação que Wilde faz do esteticismo é uma rejeição do homo eroticus pateriano. Este passa de sensação em sensação buscando saciar mais instintos do que aspirações e seu fim mais coerente seria a auto-aniquilação orgiástica. Mais uma vez torna-se inevitável uma comparação com Nietzsche e sua inestimável afirmação da superioridade da unificação do dionisíaco com o apolíneo, a qual via na forma do herói trágico. Aqui encontramos também uma importante coincidência com o escritor inglês, que sabia grego e conhecia a Antigüidade Clássica, o que contribuiu para que alcançasse quase intuitivamente a sábia visão nietzscheana do mito como “subversor” do presente utilitarista. Wilde conseguiu isso com a criação de seus famosos contos de fada. Esta forma de narrativa guarda similaridades com os mitos e permitiu, mais uma vez, que se revelasse o intuito wildeano de junção da ética à estética. Seus contos de fada são moralizantes, exemplares de uma concepção de moral mais aguda e humana do que a vigente na sociedade vitoriana. Ele percebia cada vez mais que o problema reacionário não era a moral, mas seus guardiães deformadores puritanos. Como observaria Freud mais tarde, em nossa sociedade os preceitos morais aplicam-se exclusivamente à manutenção do princípio de propriedade e à restrição da sexualidade ao que se considera normal, mas as mentiras, traições e desonestidades em geral vigoram absolutas. A moral wildeana parece professar que o bom, o belo e o agradável estão na alma humana. A moral burguesa é distorcida porque baseia-se no espírito corrompido pelos interesses utilitaristas da sociedade pautada pela economia. Ao ler um conto de fada como “O Príncipe Feliz”, temos a confirmação dessa sua percepção. Neste conto, a estátua de um príncipe ornada por ouro e pedras preciosas conta com a amizade de uma ave para auxiliar pessoas necessitadas através de elementos de seu próprio corpo. A ave abdica de migrar para o Sul e morre de frio enquanto a estátua, sem seus adornos preciosos, é demolida como inútil pelos administradores da cidade. Mas os amigos são recompensados divinamente por sua bondade. Em “A Decadência da Mentira”, ensaio no qual insiste no resgate da mentira, ou seja, do relato das belas coisas falsas, chega a gracejar afirmando que mentir para fomentar o progresso da juventude é a base da educação familiar. Este jogo proposital com o sentido do vocábulo mentira é sintomático de sua compreensão aprofundada da moral. Desde crianças ouvimos censuras a quem mente, mas a mentira é tão dúbia quanto a moral humana. Pode ser utilizada para o bem, como no caso da educação dos jovens, mas pode ser utilizada como meio de concretização de perfídias. O que Wilde intenta é o resgate da moral pura. A arte e a beleza exaltadas pela estética seriam o melhor meio de transformação do homem, mas perdem seu poder num mundo dominado pela realidade objetiva. A distinção extrema entre realidade e fantasia que caracteriza nossa era impede a arte de atuar sobre a realidade. A arte é o símbolo da perfeição alcançada pelo espírito humano e que pode salvar o infeliz homo oeconomicos. A arte é o modelo perfeito que o homem moderno deveria imitar, mas sua distinção entre real e imaginário desqualifica a imaginação e o aprisiona na materialidade que o agride e o deforma. Apenas quando a vida imitar a arte e, portanto, alcançar-se o ideal do homo aestheticus, o ser humano terá resgatado sua dignidade. Vivemos na era da decadência da mentira, da imaginação, do humano. O termo decadência é utilizado no título do ensaio como justa homenagem ao decadentismo. A decadência da mentira é ilustrada através de uma sucinta análise da ascensão do realismo na literatura. O realismo era, na época, o modernismo. Wilde criticou a fascinação pelo moderno observando que ele sempre envelhece. Através dos personagens que dialogam no ensaio, recusa-se a ver a realidade de maneira distinta da ficção. Compreendemos assim, sua asserção de que o século XIX, tal como o conhecemos, é em grande parte uma invenção de Balzac. Se tal observação fosse aceita descobrir-se-ia que La Comédie Humaine é, além da compilação das melhores obras desse autor, a concretização de tudo que a sociologia do século XIX aspirou fazer. Só que melhor. Wilde com seu The Picture of Dorian Gray (O Retrato de Dorian Gray) foi o responsável pela criação do principal exemplar romanesco inglês do decadentismo esteticista. O romance narra a história de um jovem de extraordinária beleza, Dorian, que é retratado por um pintor e passa a seguir os ensinamentos de um esteta teórico, Henry Wotton. Dorian deseja ser sempre belo e por razões inexplicáveis seu retrato passa a revelar os sinais do envelhecimento e das transformações de sua personalidade que seu rosto perfeito esconde. A cada experiência em busca do prazer que sempre se frustra e resulta em amargor e embrutecimento, a pintura expõe os sinais que o rosto real de Dorian não revela. O fato do jovem terminar por esconder o quadro é uma metáfora sobre a atitude tomada pela sociedade burguesa com relação à arte. Ao invés de aprender com ela, de reconhecê-la como modelo denunciatório das corrupções do humano na realidade, a sociedade burguesa prefere desviar os olhos. A figura do esteta enquanto degustador dos pecados é criticada através do protagonista. Os ensinamentos de Pater são (re)apresentados pelo personagem de Henry Wotton apenas para serem desacreditados. O próprio Pater, em resenha sobre o livro, observa que lorde Wotton não consegue reconhecer que a vida da mera sensação é anárquica e autodestrutiva. Dorian Gray é seu discípulo e termina mal, é o primeiro mártir do esteticismo à la Pater e a negação wildeana da divisão entre ética e estética. A dicotomia entre vida e arte é negada no romance. O real e a fantasia são invertidos a partir do momento em que o retrato de Dorian passa a revelar as marcas do tempo e os sinais de degradação advindos da entrega aos prazeres enquanto o Dorian real permanece jovem e aparentemente virtuoso aos olhos dos outros. No final do romance, o Dorian verdadeiro é o velho decaído do retrato e, mais uma vez a arte revela ao homem sua face que quis ocultar. Através da destruição do quadro, Dorian se suicida e a tela volta a estampar a figura bela retratada pelo pintor, a qual deveria ter mantido como modelo para sua vida. Wilde ousou tocar em feridas com sua obra e na maneira como conduziu sua vida pessoal. Seu julgamento e condenação por homossexualismo revela a resposta cruel da sociedade que intentava mudar. Em De Profundis encontramos uma observação de extrema lucidez sobre o fatídico erro de Wilde, o processo por difamação contra o pai de seu amante que terminou por incriminá-lo:“‘A única ação vergonhosa, imperdoável e absolutamente desprezível de minha vida foi permitir que me obrigassem a recorrer à Sociedade em busca de ajuda e proteção.[…] Evidentemente, assim que pus em movimento as forças da Sociedade, ela voltou-se contra mim e disse: ‘Você viveu todo esse tempo desafiando minhas leis, e agora recorre a essas leis em busca de proteção? Vai ter essas leis exercidas integralmente. Vai submeter-se àquilo a que recorreu’. O resultado é que estou no cárcere.’” (citado In: Paglia: 1993, p.520) Na longa carta afirma que o prazer pode ser concedido ao belo corpo, mas à bela alma só é concedida a dor. A sociedade castigou Wilde. Sem nunca ter aceito o sofrimento em sua obra, experimentou em sua própria vida a humilhação e a dor que o alçariam à condição de herói trágico. A realidade foi vil com um de seus maiores críticos, mas confirmou sua crença na superioridade da arte como modelo de perfeição humana. Em suas obras encontramos exemplares desta perfeição diante da qual a realidade não consegue esconder os olhos turvos de culpa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASEagleton, Terry. A Ideologia da Estética. Traduzido de The Ideology of the Aesthetic por Mário Sá Rego Costa. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1993. Ellmann, Richard. “Os usos da decadência: Wilde, Yeats, Joyce” p. 11-27 e “Henry James e os estetas” p.153-171 In: Ao Longo do Riocorrente. Traduzido de a long the riverrun_ Select essays por Denise Bottmann. São Paulo, Cia das Letras, 1991. Ferry, Luc. “A Revolução do Gosto” In: Homo Aestheticus_ A Invenção do Gosto na Era Democrática. Traduzido do original francês Homo Aestheticus_L’Invention du Goût a L’Age Démocratic por Eliana Maria de Melo Souza. São Paulo, Editora Ensaio, 1994. p.21-55 Nietzsche, F.W. O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo. Traduzido de Die Geburt der Tragödie oder Griechtum und Pessimismus por J. Guinsburg. São Paulo, Cia das Letras, 1992. 177p.Paglia, Camille. “O menino bonito como destruidor: The Picture of Dorian Gray, de Wilde” e “O epiceno inglês: The Importance of being earnest, de Wilde” In: Personas Sexuais São Paulo, Cia das Letras, 1993. p.470-523 Pater, Walter. La Renaissance. Traduzido para o francês por F. Roger-Cornaz. Paris, Librairie Payot, 1917. 365p.Schiller, F. A Educação Estética do Homem. Traduzido de Über die Äesthetische Erziehung des Menschen por Roberto Schwarz e Márcio Suzuki. São Paulo, Iluminuras, 1990. 162p.Wilde, Oscar. Obra Completa. Rio de Janeiro, José Aguilar, 1961. 1470p.Wilde, Oscar. The Portable Oscar Wilde. Harmondsworth, Penguin Books, 1981. 741p.

-Mais, muito mais, eternamente-.

-José Heitor da Costa-.

Publicado agosto 15, 2014 por heitordacosta em Cultura

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A Ordem das Cabeças Pensantes   Leave a comment

Cabeças Pensantes atentem e vigiem
Algumas Datas……..
Antes de Cristo:
c.40 a.C.: Herodes, rei de Judá.
c.146 a.C.: Os romanos traduzem Agricultura do cartaginês Mago.
c. 200 a.C.: Regras Aritméticas de Nove Partes, tratado chinês.
214 a.C.: Chi-Huang-Ti inicia a construção da Grande Muralha.
216 a.C.: Tcheng-Mo aperfeiçoa os caracteres da escrita chinesa.
c. 285 a.C.: Construção do Colosso de Rodes (ilha do mar Egeu).
c.312 a.C.: Em Roma, construção da Via Apia e do Aqueduto.
c.350 a.C.: Primeiros tratados de medicina chinesa.
c.430 a.C.: Data provável em que o Oráculo de Delfos aponta SÓCRATES como o mais sábio dos homens.
c.450 a.C.: Surge na Grécia o moinho movido por força animal. l No Império Romano, data provável da primeira lei escrita: Lei das XII Tábuas.
c.521 a.C.: A mística de Zoroastro passa a ser a religião do Estado persa.
c. 550 a.C.:l Inventado o tear manual, na China.
c.600 a.C.: Invenção da soldadura de ferro. l Concluída a composição da maior parte dos livros proféticos do Antigo Testamento: Pentateuco e os Livros de Samuel. l Lesbos: Poesia de Safo. l Começo da escrita, entre os latinos. l Apogeu de Heráclioto, autor de Da Natureza.
c.680 a.C.: Invenção da moeda pelos gregos.
c. 850 a.C.: Os lídios cunham moeda. l Em Esparta, Licurgo redige as suas Leis. l Poemas de Homero; primeiro a Ilíada e muito depois a Odisseia
c. 900 a.C.: Os gregos introduzem as vogais no alfabeto.
. 6 a.C.: Nascimento de JESUS CRISTO.
-Fonte: Tábua Cronológica-vidas lusofonas-
-Mais, muito mais, eternamente-.
-Heitor da Costa-

Publicado agosto 14, 2014 por heitordacosta em Uncategorized

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Homenagem as crianças assassinadas no Oriente Médio

 

 

Publicado agosto 7, 2014 por heitordacosta em OS ESPETÁCULOS

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