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       A Maçonaria Liberal – Prolongamento do Rito Francês
Escrito por SGCCRC

A Maçonaria Liberal enquanto tal, começou a desenvolver-se nos Grandes Orientes da Bélgica e da França, a partir da segunda metade do século XIX, sobretudo nos anos 1872 e seguintes, quando se instaurou o princípio da Liberdade Absoluta de Consciência relativamente à invocação ou não, nas Sessões maçónicas, do Grande Arquitecto do Universo (GADU). Portanto, o termo Maçonaria Liberal tem a ver com a noção de Liberdade Absoluta de Consciência e não tem nada a ver com as teorias do liberalismo económico.

Para compreender melhor como a Maçonaria Liberal chegou a estes conceitos em 1872, convém analisar o seu percurso histórico anterior.

É normalmente aceite que os antepassados da Maçonaria pré-especulativa, portanto anterior a 1717, remontam ao egípcios, à construção do Templo de Salomão e aos Templários. Estes incrementaram, em colaboração com a Igreja católica no Ocidente, as corporações medievais das diferentes profissões (pedreiros, talhadores de pedra, carpinteiros, etc.) que, através do seu enorme poder económico e político, financiaram inúmeras construções (castelos, pontes, portos, etc.) culminando nas Catedrais.

Com o desaparecimento oficial dos Templários, as corporações perderam os seus financiadores mais importantes, mas continuaram a desenvolver-se baseados no seu imenso “savoir faire” adquirido, com obras por todo o Ocidente europeu e no Médio Oriente, agora financiados por reis, eclesiásticos, senhores feudais e outros.

Um núcleo importante de Templários, em colaboração com a Ordem de Cister, instalou-se em 1004 na Escócia, em Heredom de Kilwining e em 1042, com a ajuda dos beneditinos, fundaram um Abadia.

Foi a partir deste núcleo, sob a protecção dos reis da Escócia, que progressivamente se veio a transformar a Maçonaria operativa em especulativa. Esse mesmo desenvolvimento ocorreu igualmente noutros lugares e noutros países, mas digamos que este foi o veio mais importante e do qual existem alguns documentos históricos, muitos dos quais compilados e publicados pela Loja QUATUOR CORONATI, fundada em 1886 dentro da G:.L:.U:.I:., precisamente para fazer uma abordagem histórica, rigorosa e fidedigna da Maçonaria especulativa, longe dos mitos e das lendas, como infelizmente muitas vezes ouvimos à nossa volta. David Stevenson, grande investigador da história da Maçonaria, que nunca foi Iniciado, portanto um profano, é outra fonte importante e imprescindível para estudarmos esta época.

Entre 1390 e 1723 encontramos nada menos do que 130 manuscritos relatando os usos e costumes, ritos e histórias da Maçonaria operativa. Dentro destes, existe consenso entre os investigadores, sobre alguns textos fundamentais, nomeadamente o denominado Regius da região de Gloucester, escrito em forma de poema e datado de 1390. O documento Cooke, da região de Oxford, datado de 1410. Outro manuscrito, denominado Grand Lodge, da região de York, data de 1583. Contudo os textos mais elaborados e completos, são os das corporações de York e de Edimburgo, embora este muito mais fragmentado.

A análise detalhada destes documentos não têm praticamente nada a ver com os Rituais maçónicos actuais, são sobretudo uma compilação de normas de comportamento moral e profissional a serem praticadas no interior das corporações e no mundo exterior, repletos de religiosidade. Referiam-se também a comportamentos de reconhecimento aquando da apresentação nos diversos Estaleiros, sobretudo para Aprendizes e Companheiros. O ponto fulcral da cerimónia de Iniciação, consistia na instrução e na revelação ao recipiendário dos sinais e duma misteriosa “Palavra do Maçon”, verdadeiro momento alto da cerimónia e que tanto intrigou ao longo dos séculos. Contudo, o pastor Robert Kirk em 1691 escrevia: ” A Palavra do Maçon, que alguns fazem mistério, é uma espécie de tradição rabínica, no sentido dum comentário sobre Jackin e Boaz, as duas colunas erguidas no Templo de Salomão, mais a adjunção dum determinado sinal secreto transmitido de mão a mão, através do qual se reconhecem e se tornam familiares entre eles”.

Nos séculos XVI e XVII, em Inglaterra, vivia-se uma época de guerras internas, de instabilidade política, não só entre escoceses e ingleses, como também entre estes, com Cromwel a instalar uma efémera república, a estabelecer os fundamentos dum parlamentarismo rudimentar, tudo isto numa paisagem de guerra de religiões, nomeadamente entre católicos e anglicanos, depois da ruptura de Henrique VIIIº com Roma.

Neste contexto histórico, o Irmão WILLIAM MORAY, o último verdadeiro Vigilante Geral da Escócia, parece ser o elo historicamente verdadeiro, através dos documentos existentes, entre a Maçonaria operativa renovada da Escócia, o Invisible College, a Royal Society e a Maçonaria Especulativa moderna Inglesa. William Moray era filho de Sir Mungo Moray, proprietário de vastas terras na região de Pertshire. Nasceu em 1607, foi engenheiro militar e em 1640 era Quartel Mestre General do Exército escocês.

Por outro lado, estamos num período de transição entre uma época cujo pensamento era controlado completamente pela Igreja de Roma e outra época nova, introduzida pela contestação protestante nas suas diversas variantes. A sociedade estava ávida de conhecimentos científicos e desejavam libertar-se da Igreja. Não esqueçamos a polémica com Galileu (1633). Estamos a dar os primeiros passos que nos levarão à época das Luzes. É neste período que aparece a metodologia do “livre exame”, que consiste em analisar de forma critica, quer a Bíblia quer os Evangelhos, como também a sociedade e todo o conhecimento cientifico desta época, que virá a desabrochar nos enciclopedistas, dos quais o nosso Irmão Voltaire foi uma das figuras de proa deste movimento.

William Moray aparece portanto como o primeiro Maçon aceite numa Loja, 6 anos antes de Elias ASHMOLE (1647) e é Moray que vai estabelecer a ligação entre a Escócia e a Inglaterra (com Ashmole), a ligação entre a Escócia e a França e a ligação entre o Invisible College, a Royal Society de Londres e a Maçonaria. David Stevenson, diz que “Sir William Moray não pode ser considerado como um Maçon ordinário dos meados do século XVII: o facto de ele ter deixado escrita tanta documentação sobre a Maçonaria, faz dele uma testemunha realmente única”. É portanto naturalmente que o vamos encontrar, com Elias Ashmole, na fundação da Royal Society, mas também como membros do Invisible College. Este, criado em 1597, foi de longe o mais importante, pela qualidade dos seus membros. Começou por se reunir primeiro em Londres no Gresham College e a partir de 1645, em Oxford. Era um conclave misterioso, total e altamente secreto, extraordinariamente elitista e oculto. Agrupava os principais animadores da sociedade Rosa-Cruz de Andrae, à volta de Robert Fludd que era um rosacruciano célebre nesses meios. Contava ainda no seu seio com Elias Ashmole, William Moray, Issac Newton, Christopher Wren, todos eles altamente impregnados dum pensamento hermético. O Invisible College é o percursor da Royal Society e da Maçonaria moderna, que se constituíram não uma contra a outra, mas completando-se mutuamente, segundo um processo de dupla face, imaginado, desejado e conduzido por William Moray e os seus companheiros.

Os segredos do Invisible College eram tais que ainda hoje se especula sobre os seus Trabalhos e reuniões. Certo é que existia um segredo entre eles e muito poucos, ainda hoje, mesmo dentro da Maçonaria actual, têm conhecimento deste Colégio Invisível. Indirectamente conhecem-se os trabalhos vindo a público no mundo profano dos seus membros. Era contudo um local de total confiança, segurança e sigilo entre os seus membros. Não se conhece qualquer Ritual de Iniciação específico, mas indirectamente sabia-se que existia um segredo. A época que se vivia era de tal inquietude, com um conhecimento dominado, controlado e aprovado pela Igreja Católica que, qualquer tentativa de perturbação destes conhecimentos dogmáticos “Oficiais” era passível de excomunhão o que, embora existissem cismas entre as diferentes correntes cristãs, o “medo” da excomunhão era extensível mesmo aos que não estavam sob a alçada da Igreja da Roma. Portanto, os membros do Invisible College, tinham que duplamente se proteger: por um lado, das perseguições exteriores e por outro protegerem-se entre si. Permaneceram pois secretos, para não dizer discretos, como ainda deve ser a Maçonaria actual. São pois, doze membros do Invisible College que vão estar na origem da fundação da Royal Society, em 1660.

A Royal Society não tinha qualquer vocação para o ensino, antes pelo contrário era um local de encontro de diferentes investigadores, universitários ou não, que apresentavam o resultado dos seus trabalhos, numa sessão pública, geralmente seguida de debates, em todas as áreas do conhecimento então conhecidas. Como estávamos numa Inglaterra saída duma Guerra Civil, entre os monárquicos e os republicanos de Cromwel, onde a parlamentarismo acabou por ser instaurado. Com o advento da Religião anglicana, presbiteriana e outras, com a instauração dum respeito pelas diversas correntes do mundo cristão, única maneira de se evitarem guerras fratricidas, a Igreja Católica permanecia como um dos pilares mais importantes a todos os níveis societários. Este espírito de abertura cientifica, consubstanciado na Royal Society, só podia ser possível nesta época e em Inglaterra, por a Igreja Católica ter perdido a sua força oficial e a Inquisição já não poder actuar de forma alguma nestes reinos. Por outro lado, esta abertura de espírito e de investigação cientifica era muitíssimo mais limitada nos países de influência católica, onde pontificava o poder repressivo da Inquisição e da doutrina dogmática da Igreja Católica.

Os Estatutos da Royal Society são bastante formais e detalhados. Criam uma personalidade moral que ultrapassa os seus fundadores e se situa nos dizeres de Henry Oldenbourg, como sendo uma “instituição perpétua”, que tinha como finalidade “perscrutar toda a Natureza e inquirir sobre a sua actividade e os seus poderes, pelas vias da observação e da experimentação; depois, com o decurso dos tempos, criar uma filosofia mais sólida e maiores progressos para a civilização”.

No fundo, meus Irmãos, isto é exactamente o mesmo que os Maçons defendem, por outras palavras, quando proclamam Trabalhar para o Progresso da Humanidade.

Se fizermos uma pausa neste momento para reflectir, podemos afirmar “mutatis mutandis” que é muito mais lógico a Maçonaria especulativa moderna, provir deste movimento intelectual consubstanciado no pensamento desenvolvido no Invisible College e na Royal Society, do que nas confrarias corporativas medievais da Maçonaria operativa, onde os documentos existentes, nomeadamente os rituais conhecidos, são simplesmente paupérrimos e têm pouco a ver com a Maçonaria desenvolvida por Anderson e Desaguliers a partir de 1717.

Vejamos:

Thomas Sprat, 50 anos antes das Constituições de Anderson, referindo-se ao pensamento cientifico praticado na Royal Society, escrevia como sendo “uma religião que é confirmada com o assentimento unânime de várias crenças religiosas e que deve servir, respeitando a Cristandade, como o Pórtico do Templo de Salomão”. Por outro lado, a Royal Society, estabelece regras que se aparentam com as mesmas que a Maçonaria especulativa irá mais tarde adoptar:

– Apresentação dum candidato.
– Aprovação mediante votação dos seus membros.
– Eleições dos responsáveis (primeiro mensais, depois anuais).
– 3 Responsáveis (evidentemente).
– Etc.

Peço-vos desculpa por ter sido talvez demasiado longo sobre este período histórico, mas pareceu-me importante sublinhá-lo, pois o que normalmente anda a ser falsamente propagado, é que a Maçonaria moderna foi criada em 1717, com ligações ténues à Maçonaria operativa medieval, quando o elo importante desta ligação, não é de maneira nenhuma esse, mas antes o pensamento cientifico, racional, Livre-Examinista do Invisible College primeiro e da Royal Society em seguida, que irão mais tarde provocar o nascimento da Maçonaria moderna.

Como ?

Simplesmente por questões de segurança, de descrição e de privacidade. Primeiro os membros do Invisible College, que era secreto e oculto, adquiriram uma determinada notoriedade com a fundação da Royal Society. Esta, com o seu desenvolvimento fulgurante, devido à avidez com que os cientistas da época desejavam trabalhar, longe dos moldes estabelecidos pela Inquisição católica, permitiu a entrada de numerosos membros que apresentavam, como sabemos, as suas investigações e trabalhos em sessões públicas. Um grupo restrito, resolveu então regressar à primitiva discrição e privacidade dos tempos do Invisible College, vindo a formar quatro Lojas em Londres, que deram origem à Grande Loja de Londres e Westminster e à Maçonaria especulativa actual.

Importante frisar e sublinhar de forma clarividente e indubitável, que foram um conjunto de Irmãos Maçons, sete no mínimo, que constituíram a sua própria Loja, de livre vontade. Daí falarmos, ainda hoje, na Maçonaria Liberal, dum Maçon Livre, numa Loja Livre.

Em seguida, formadas estas primeiras quatro Lojas, totalmente independentes umas das outras, embora com relações de Fraternidade entre elas, é que estes Irmãos decidiram criar a primeira Grande Loja de Londres.

Finalmente, estas Lojas e outras que entretanto se constituíram, encarregaram o pastor James Anderson de criar uma Constituição, à qual todos os Irmãos da Lojas se comprometiam a “obedecer”, advindo daí a expressão de Obediência.
Portanto, primeiro vieram os Irmãos Maçons, em seguida as Lojas e finalmente a Obediência. Tudo isto constituía uma Cadeia de União harmoniosa que tinha como base os Irmãos reunidos em Lojas, sendo a Obediência apenas a entidade administrativa que geria o conjunto de Lojas.

Claro que isto no inicio era assim, mas com o decorrer dos tempos tudo se inverteu, devido à sede de poder e de dominação de alguns Maçons.

Estas primeiras Lojas apenas compreendiam Aprendizes e Companheiros e um Mestre, que era ao mesmo tempo o Venerável Mestre da Loja. A lenda de Hiram foi introduzida mais tarde. Tal como nas Lojas operativas medievais os médicos podiam fazer parte da Loja sem serem Iniciados, pois a sua tarefa era verificar se os membros da Loja tinham capacidades físicas para o trabalho que iriam desenvolver. Em cada Loja existia também um padre ou pastor, que também não era obrigatoriamente Iniciado, mas servia apenas para dirigir as orações. Era o contexto da época. Por exemplo, James Anderson que veio a redigir as Constituições ditas de Anderson em 1723, revistas e corrigidas em 1735, segundo o historiador inglês da Maçonaria, David Stevenson, nunca foi Iniciado na Maçonaria. Tinha o direito de participar nos Trabalhos da Loja simplesmente porque era pastor anglicano.

Isto para dizer claramente que os Rituais maçónicos não têm qualquer origem divina ou revelada, nem caíram do céu. Foram sendo escritos, corrigidos e adaptados ao longo destes trezentos anos, pela acção dos Homens, isto é dos Maçons que constituem as diferentes Obediências e Potências maçónicas, independentemente dos seus Ritos. Portanto, não devemos ter uma visão estática, imutável ou dogmática dos Rituais.

A prova disso é que na própria Inglaterra, logo a seguir a criação da “primeira” Grande Loja de Londres e Westminster, em 1717, foi criada em 1751, uma “segunda”, denominada Grande Loja dos Antigos Maçons. Tinha como principal animador o Irm:. Lawrence Dermott, que chegou a convencer os Irmãos da “primeira” Grande Loja de Londres, que estes tinham efectivamente adoptado novos costumes. A alcunha de “Modernos” que lhes tinha sido atribuída nas polémicas, permaneceu, passando também a chamar-se Grande Loja dos Modernos, embora esta Loja fosse cronologicamente a mais antiga. Durante muito tempo os historiadores acreditaram no discurso “oficial” desta nova Grande Loja, que defendia que os Antigos teriam efectuado a cisão para poderem regressar aos antigos costumes. Ora a realidade era simplesmente outra: Os Antigos, eram maioritariamente originários da imigração irlandesa e escocesa que vivia em Londres e por esse facto nem sempre eram bem acolhidos nas Lojas inglesas. Daí desejarem criar outra Obediência onde melhor se podessem encontrar entre eles. As diferenças de ritual não advinham de inovações da Grande Loja de Londres, mas apenas do facto de na Irlanda e igualmente na Escócia, terem reorganizado os rituais da antiga Maçonaria operativa escocesa de maneira ligeiramente diferente. Assim, no século XVII, a Palavra do Maçon no 1º grau, era J:. e B:. (à pergunta J:.?, a resposta era B:.). Quando foram reformulados os rituais, entre 1720 e 1730, aos “segredos” do antigo grau operativo de Aprendiz, os ingleses atribuíram a palavra J:. ao primeiro grau e B:. ao segundo grau. Os irlandeses e os escoceses fizeram uma escolha inversa. O ritual dos Antigos não é nem mais, nem menos simbólico que o ritual dos Modernos. Apenas hierarquizaram os símbolos de maneira um pouco diferente, é tudo.

Isto faz-me lembrar o cisma que originou a separação entre a Igreja de Constantinopla e a de Roma. Para se diferenciarem actualmente, uns benzem-se duma maneira, os outros de forma inversa.

O que se passou em Inglaterra, veio a passar-se “mutatis mutandis”, noutros países, incluindo a França ou Portugal, mas não vou abordar aqui e hoje, esse aspecto da evolução histórica.

Neste contexto, como chegámos à Maçonaria Liberal ?

A Maçonaria inglesa passou para França entre 1725 e 1730, através da implantação das primeiras Lojas, utilizando todas durante o século XVIII o ritual da primeira Grande Loja de Londres, dita dos Modernos.

Como este Rito dos Modernos foi traduzido e implantado em França, a partir de 1725, paradoxalmente, é este Rito da primeira Grande Loja de Londres de 1717, que permaneceu e continuou em França, com o nome de Rito Francês (por se desenvolver em França) e Moderno, por a sua origem provir da Grande Loja de Londres de 1717, dita dos Modernos.
Aqui está pois, historicamente explicado, o significado do nome de Rito Francês ou Moderno, tal como ainda hoje é denominado, nomeadamente na nossa Loja Delta e no Grande Oriente Lusitano.
Nessa época as Lojas civis eram todas, como hoje ainda, constituídas ao Oriente de … (Londres, Oxford, etc.) e as Lojas militares ao Oriente do Regimento… seguido do nome do respectivo regimento. São sobretudo estas Lojas militares que introduzem a Maçonaria em França. Esta implantação inicia-se depois de finda a guerra civil nas ilhas britânicas, em que James II dito dos Stuarts acaba por ser expulso de Inglaterra e os seus regimentos militares virem a refugiar-se em França, principalmente na região de Saint Germain-en-Laye, nos arredores de Paris. São sobretudo estas Lojas militares que introduzem a Maçonaria em França.
Em 1732, dá-se a fundação da Grande Loja de França que não tem nada a ver com a actual Grande Loja de França, fundada somente em 1897.

O primeiro grande resfriamento das relações entre a Maçonaria anglo-saxónica e a Maçonaria continental, isto é, entre a Inglaterra e a França, para além de rivalidades políticas (Império britânico – Napoleão, etc.), dá-se igualmente por razões e motivos maçónicos institucionais.

Era hábito e prática dessa época, as Lojas pertencerem ou serem propriamente propriedade pessoal dum Venerável Mestre inamovível que poderia ser um nobre ou um burguês abastado. Em 1773 reuniu-se em Paris o Convent (equivalente da Grande Dieta do G:.O:.L:.) e os Delegados da província instauraram o princípio da eleição dos Veneráveis, contra a opinião dos Delegados de Paris que eram a favor da inamovibilidade dos Veneráveis Mestres das Lojas. Temos de tentar compreender que o contexto da época era monárquico, portanto hereditário e a noção de eleições, portanto um princípio democrático e republicano, não estava na moda do tempo, tanto mais que em 1773 estávamos na véspera da Revolução Francesa. Igualmente nesse ano e nesse Convent, instaura-se o princípio, segundo o qual, a soberania do povo maçónico reside nos Delegados eleitos pelas Lojas e estes, reunidos em Convent, exercem essa Soberania. São estas ideias que vão levar à Soberania do povo, através da representação parlamentar e de todo o desenvolvimento pós-Revolução Francesa. Portanto são estes princípios fundamentais, revolucionários para a época, que vêm marcar uma diferença qualitativamente determinante em relação ao passado. De salientar que é o Convent desse ano que decidiu alterar o nome da primeira Grande Loja de França, para Grande Oriente de França (G:.O:.D:.F:.), que passa a ser uma Federação de Lojas e de Ritos, pois o G:.O:.D:.F:., incluía, tal como o G:.O:.L:., vários Ritos.

O segundo “resfriamento” com a Maçonaria anglo-saxónica, que veio o provocar com o decorrer dos tempos um cisma e uma ruptura total, dá-se em 1877, quando o Convent do G:.O:.D:.F:. (depois do Grande Oriente da Bélgica o ter efectuado em 1872 – 5 anos antes), declara que a obrigatoriedade da invocação do Grande Arquitecto do Universo (G:.A:.D:.U:.), a presença em Loja da Bíblia ou dum Livro Sagrado e a crença na alma e ma sua imortalidade, passariam a ser assuntos do foro íntimo de cada Maçon, segundo a sua própria Liberdade Absoluta de Consciência. É a partir desta data que se passou a designar progressivamente esta Maçonaria de Liberal, no sentido de Liberdade Absoluta de Consciência, o que não tem nada a ver com o liberalismo económico actual.

Porquê esta ruptura entre a Maçonaria Anglo-saxónica e nórdica, existente numa zona predominantemente protestante e a Maçonaria Latina, existente numa zona geográfica de influência católica?

Se antes de 1870 era consensual na Maçonaria a presença da Bíblia em Loja, por influência dos pastores protestantes Anderson e Desaguliers, porque sendo a Bíblia um livro incluído no Índex da Igreja Católica Apostólica e Romana, portanto proibida a sua leitura aos católicos, uma das reivindicações dos protestantes (Lutero, Calvino, etc.) era precisamente a exigência dos cristãos poderem ter acesso livre à leitura da Bíblia (entenda-se aqui por antigo e novo testamento, portanto também os evangelhos). Quando os Grandes Orientes da Bélgica e da França passam a afirmar que a presença da Bíblia não era obrigatória em Loja, o que para os protestantes era importantíssimo, dá-se um afastamento gradual nas relações entre estas duas correntes da Maçonaria.

Porquê esta tomada de posição dos Grandes Orientes?

Temos de compreender que o contexto da época, consistia em tentar a destruição da Maçonaria, pela Igreja Católica, nos países latinos de sua influência. É a época das excomunhões, pois a Igreja não podia aceitar uma noção de G:.A:.D:.U:., que substituía o seu Deus, nem permitir o estudo e a interpretação da Bíblia que a Igreja tinha colocado no Índex. A Igreja não podia aceitar de forma alguma que dentro da Maçonaria pudessem conviver Irmãos de diferentes sensibilidades religiosas (entenda-se católicos, anglicanos, luteranos, calvinistas etc.). Por outro lado, depois de sairmos da época das Luzes e da Revolução Francesa, estamos em plena influência das ideias políticas dos republicanos da Comuna de Paris, dos defensores da teoria da evolução das espécies de Darwin, do positivismo de Augusto Comte, do racionalismo de Descartes e de outros, culminando no pensamento, de Henri Poincaré quando escrevia: “O pensamento nunca se deve submeter, nem a um dogma, nem a um partido, nem a uma paixão, nem a um interesse, nem a uma ideia pré-comcebida, nem ao que quer que seja, a não ser aos factos em si, porque para o pensamento, submeter-se, seria deixar de existir”. Estamos em pleno pensamento Livre-Examinista, que embora tivesse sido iniciado pelos que contestavam a Igreja de Roma a partir do século XVII, estava agora a iniciar o período de apogeu da sua metodologia, juntamente com o Livre Pensamento. Os Irmãos Maçons, oriundos da esfera geográfico-cultural dita protestante, portanto da Grande Loja Unida de Inglaterra, permaneceram e permanecem ainda hoje, numa posição dogmática e imutável em relação aos princípios de Anderson e dos Land Marks. Não aceitam os princípios de liberdade absoluta de consciência, recusando-se a tentar compreender as circunstâncias do contexto histórico de agressão por parte da Igreja Católica, de que foram vitimas os Irmãos da Maçonaria latina do Sul da Europa. Não esqueçamos que, aliadas a estas divergências religiosas e filosóficas, existiam também as rivalidades políticas entre uma França republicana e uma Inglaterra monárquica e imperial, no apogeu do seu poderio colonial e industrial.

Inicia-se então o afastamento progressivo entre estas duas correntes da Maçonaria. A Grande Loja Unida de Inglaterra (G:.L:.U:.I:.), declara-se a única Potência maçónica “regular”, deixando de reconhecer as outras Obediências maçónicas, proibindo qualquer contacto entre elas, não só entre instituições como entre Irmãos. Declarou que só reconhecia as Obediências cujas Patentes tivessem sido outorgadas por Londres ou por outras Grandes Lojas, cuja filiação imanasse dela. Finalmente, a 4 de Setembro de 1928, decretou os 8 pontos fundamentais para que uma Obediência podesse vir a ser reconhecida por Londres, cujos elementos principais e mais polémicos, mas obrigatórios, são os seguintes:

– Invocação do G:.A:.D:.U:., na abertura e no encerramento dos Trabalhos;

– O G:.A:.D:.U:., é um Deus revelado;

– Presença em Loja da Bíblia ou outro livro sagrado de inspiração divina;

– Acreditar na alma e sua imortalidade;

– Não permitir a presença feminina em Loja;

– Não discutir política em Loja;

– Não discutir religião em Loja;

– etc.

Or Irmãos franceses e belgas do século XIX, consideravam que a Maçonaria não tinha necessidade de invocar o G:.A:.D:.U:., pois a Maçonaria não é nenhuma religião. Se a Maçonaria pretende ser o Centro de União da Humanidade, como especificado nas Constituições de Andersen, então a Maçonaria tem que respeitar igualmente as religiões orientais, algumas das quais nem são deístas, tais como os budistas, taoistas, confucionistas e outras, que são antes filosofias de vida que podem levar à Sabedoria, afastando-se da inspiração judaico-cristã tradicional. Esta Maçonaria Liberal, defende o princípio dum Maçon Livre numa Loja Livre, tendo as Lojas, segundo a Liberdade de Consciência dos seus membros, toda a autonomia para se organizarem internamente:

Existem Lojas que invocam o G:.A:.D:.U:. e outras não.
Algumas utilizam a Bíblia, ou o Corão, ou um livro branco, ou nada.
Umas são rigorosas no simbolismo e muito esotéricas.
Outras são positivistas, Racionalistas ou Livre-Exaministas.
Algumas nem utilizam velas.
Nem tapete de Loja (porque já estão a trabalhar num Templo), etc.
No nosso entender, a Maçonaria não deve professar qualquer doutrina agnóstica ou ateia, mas também não deve impor qualquer tipo de dogma, tal como expresso na Constituição do G:.O:.L:..
Por isso, a grande maioria das Lojas, abre os Trabalhos à Glória da Maçonaria Universal, sob os auspícios deste ou daquele Grande Oriente ou Grande Loja, consoante o nome da sua Obediência.

Existem Valores que ao longo do tempo se foram afirmando cada vez mais, como nota especifica da Maçonaria Liberal, Assim, para além da Liberdade Absoluta de Consciência e outros, enumerados anteriormente, encontramos noções tais como:
A Democracia;
A Laicidade;
A República;
O Livre-Exame;
A Igualdade dos sexos em Maçonaria, hoje com o direito de visita das Irmãs, amanhã com a formação de Lojas, masculinas, femininas ou mistas, visto que um Grande Oriente, é uma federação de Lojas e de Ritos;
A Igualdade de raças, não aceitando qualquer forma de racismo;
A não formulação de posições dogmáticas;
Liberdade de discussão de assuntos religiosos;
Liberdade de discussão de assuntos políticos (estes dois dentro da maior Tolerância e respeito, para bem do Progresso da Humanidade);
Elegibilidade dos cargos em Maçonaria, com mandatos temporais definidos, normalmente, não reeligíveis;

O Maçon Trabalha para a construção do seu Templo interior, mas igualmente para o Templo do Progresso da Humanidade; foram estes Valores, conotados com a Maçonaria Liberal, que levaram às guerras liberais do século XIXº, entre D. Pedro e D. Miguel (um, Rei com Carta Constitucional, o outro, Rei por direito divino e absoluto), que mais tarde vieram a culminar na implantação da República em 1910, com a ajuda, preciosa e definitiva, da Carbonária.

      Imagem foto do heitor —Pois é… Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.

                             (Wiliam Shakespeare)

—Mais, muito mais, eternamente-. 

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Publicado outubro 5, 2010 por heitordacosta em Organizações

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