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                                         A mulher, a cultura, a sociedade    –Parte lll- 

 

Um breve histórico –Adriana Braga- Unisinos.

 A condição da mulher na sociedade desde muito cedo foi objeto de minha atenção. Nunca me senti confortável com a maneira pela qual relações desiguais entre homens e mulheres eram naturalizadas e tomadas como evidentes. Autores das ciências sociais, da psicologia e da filosofia sempre me chamaram a atenção com textos que problematizavam a experiência feminina no âmbito das práticas sociais, denunciando tais desigualdades. Essa constatação é reiterada pela pesquisa universitária, onde autores como Sherry Ortner afirmam que “o status secundário da mulher na sociedade é um dos verdadeiros universais, um fato pan-cultural” (1974: 67. Três dados são considerados por Ortner como evidência dessa inferioridade: desvalorização social quanto aos produtos, aos papéis, às tarefas e ao meio social feminino; os arranjos sócio-estruturais que excluem as mulheres da participação nos postos mais altos da sociedade, ligados à institucionalização do poder; e mecanismos simbólicos, como por exemplo a atribuição de “sujeira” ou “impureza” relacionada à condição feminina. Esse ponto é extensamente desenvolvido por Hilia Moreira (1994: 78), que relata o problema estético para os produtores de discursos midiáticos em lidar com a representação do período menstrual, por exemplo.

O corpo feminino, para Bourdieu, é um “corpo-para-o-outro” objetificado pelo olhar e pelo discurso dos outros. A relação da mulher com o próprio corpo não se reduz a uma auto-imagem corporal. A estrutura social desta relação está na interação, nas reações, na representação que um corpo provoca no outro e como essas reações são percebidas. As mulheres são objetos simbólicos constituintes da dominação masculina e o efeito dessa estrutura coloca a mulher em um estado perene de insegurança corporal, “elas existem primeiro pelo, e para, o olhar dos outros, ou seja, enquanto objetos receptivos, atraentes, disponíveis” (Bourdieu, 1999: 82). Assim, esse padrão interacional que subordina a mulher e a torna mesmo dependente do olhar do outro – não só dos homens – traz como conseqüência a introjeção desse mesmo olhar, que se torna parte constitutiva do próprio ser feminino. Susan Bordo (1999: 250) comenta em seu artigo Feminism, Foucault and the Politics of the Body o primeiro ato público da segunda onda de protestos feministas nos Estados Unidos em agosto de 1968: ‘No More Miss America’, um movimento contra a objetificação das mulheres promovida pelos “concursos de beleza”. Segundo ela, as participantes desse evento ganharam a reputação de “bra-burners”, mesmo que nenhum soutien tenha sido de fato queimado em tal ocasião. O que houve foi uma enorme “Lata de Lixo da Liberdade”, onde foram jogados soutiens, cintas, rolinhos para cabelo, cílios postiços, perucas, e exemplares de várias revistas femininas como: Cosmopolitan (que no Brasil chama-se “Nova”), Family Circle e The Ladies’ Home Journal. Lendo algumas edições atuais dessas revistas, mais de trinta anos depois, pode-se perceber que a objetificação das mulheres contida em seus discursos ainda é uma realidade.

A imprensa feminina pertence, sociologicamente, a um capítulo da cultura de massa, que há pelo menos três décadas tem sido foco de atenção de vários estudos acadêmicos. Edgar Morin já demonstra uma preocupação acerca do papel dessa mídia na construção da feminilidade em um de seus textos da década de 1960. Morin (1986: 162) considera que as reivindicações feministas ficaram por muito tempo inacessíveis ou restritas às esferas superiores da sociedade em conseqüência de uma dualidade radical que cortava a cultura feminina em duas partes sem comunicação. De um lado, a cultura da feminilidade, desenvolvida na imprensa feminina e que confirmava e confinava a mulher no seu papel tradicional; do outro, a ideologia da intelligentsia feminista, ignorada e filtrada pela cultura da feminilidade, que por sua vez recusava a cultura da feminilidade como alienação (ver, nesse sentido, Morin, 1998: 85). Morin situa entre 1967-1971 o “acontecimento” , que estabelece a integração entre a intelligentsia e as grandes massas femininas possibilitando uma “ideologia da mulher”. A partir daí, o impulso tomado pela contestação feminina toma forma de militância em países como França e Estados Unidos, e essa vanguarda contamina o universo dos meios de comunicação de massa, promovendo um processo que Morin define como “infiltração” na imprensa feminina. Segundo ele, a revista Elle e depois a Marie Claire realizaram as primeiras “osmoses culturais” entre feminilidade e feminismo na forma de modificação de suas revistas. Dessa forma, o sentido sociológico desse tipo de mídia se rende, em função de um avanço da condição feminina e passa também a contribuir para o desenvolvimento do movimento feminino na direção da forma contemporânea desses periódicos.

 


Tradução pessoal. No original: the secondary status of woman in society is one of the true universals, a pan-cultural fact.

 

-Continuo

-Mais, muito mais, eternamente-.

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Publicado março 11, 2009 por heitordacosta em Cultura

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